A discussão sobre inteligência artificial costuma ser dominada por um medo recorrente: o de que máquinas substituirão pessoas e tornarão profissões inteiras obsoletas. No entanto, uma reflexão recente do secretário adjunto da SINFRA/MT, Caio Albuquerque, oferece uma perspectiva mais lúcida e menos alarmista sobre o tema, especialmente quando colocada em diálogo com o debate contemporâneo sobre consciência, propósito humano e a qualidade das decisões públicas.
Ao comentar uma fala de Jensen Huang, fundador da Nvidia, Caio destaca um ponto central: a diferença entre tarefa e propósito. A tecnologia pode automatizar tarefas, analisar dados, redigir textos, interpretar imagens, mas isso não significa, necessariamente, o fim das profissões. O que permanece essencial é o propósito humano que dá sentido a essas atividades.
O exemplo dos radiologistas é ilustrativo. Anos atrás, previu-se que a IA eliminaria essa profissão. O efeito foi o oposto: com a automação da análise de imagens, tornou-se possível realizar mais exames, atender mais pessoas e ampliar contratações. O propósito do radiologista nunca foi simplesmente “olhar imagens”, mas diagnosticar doenças. A inteligência artificial apenas potencializou esse objetivo.
Esse raciocínio se aplica igualmente a outras áreas estratégicas, como o Direito, a gestão pública, a infraestrutura e diversos serviços públicos essenciais. Algoritmos podem redigir contratos, simular cenários ou organizar informações, mas não substituem a construção de confiança, a mediação de interesses, o julgamento contextual e a responsabilidade ética envolvidos em decisões que impactam diretamente a sociedade. Nesses campos, a presença humana continua sendo decisiva.
Por isso, a incorporação da inteligência artificial no setor público deve ser encarada como um processo de evolução institucional, desde que caminhe lado a lado com o investimento contínuo na capacitação técnica, crítica e ética dos servidores públicos. Sem esse cuidado, corre-se o risco de apenas automatizar fragilidades já existentes, em vez de qualificar efetivamente o serviço prestado ao cidadão.
O verdadeiro risco, portanto, não está na inteligência artificial em si, mas na renúncia ao pensamento crítico. Quando o ser humano se limita a repetir respostas prontas, sejam elas geradas por máquinas ou por consensos sociais, ocorre uma regressão silenciosa da consciência. A tecnologia, nesse caso, apenas acelera um processo que já estava em curso.
A IA não elimina o humano; ela expõe quem já havia sido reduzido à execução automática. Para quem compreende seu próprio propósito, a tecnologia surge como aliada, permitindo foco no que realmente importa: julgamento, responsabilidade, sentido e geração de valor público.
No fim, a pergunta central não é se a inteligência artificial substituirá pessoas, mas se as pessoas, especialmente no serviço público, continuarão dispostas a pensar, decidir, se qualificar e assumir o papel que nenhuma máquina pode ocupar.
O desafio, portanto, não é evitar a tecnologia, mas garantir que ela fortaleça o papel humano na entrega de valor público.
Autor: Selmo Oliveira



